Algumas
escolhas fazemos racionalmente na vida, mas outras são movidas pelo
mais alto pulsar do coração ou brilho dos olhos ao vislumbrar o
inexplicável. A escolha de um amor, uma amizade ou um time para o
qual torcer são daqueles que não precisam acompanhar a
racionalidade. Apesar de inexplicáveis, estas paixões precisam ser
medidas, como o são as palavras, os gestos, e até as mais simples
coisas para que não avancem além do real ou aceitável. Se as
palavras são possíveis de serem escolhidas, as paixões
futebolísticas não o são. Não há como explicar porque o moço da
carrocinha de fruta torce para o Santinha ou o amigo Paraibano morre
de amores pelo Palmeiras. Acho sempre inexplicável a surpresa das
pessoas para o amor do jornalista Alex Escobar pelo América. O
coração não tem razões, mas as palavras seguem o caminho do
coração, e também passam pela razão. E esta deveria guiar
palavras de jornalistas e torcedores, para impedir que a mais
inocente criança (E qual criança não é inocente na mais profunda
simplicidade?) possa andar na rua sem ser vilipendiada de seu direito
de envergar a camisa que mais lhe parece simpática. Que duas pessoas
possam conversar sobre futebol sentados numa mesa de bar sem correr o
risco de serem xingados ou agredidos em função da expressão
pública de sua preferência futebolística. Que um jovem possa andar
na rua sem medo de demonstrar seu amor por qualquer que seja seu
time.
Muito
se falou e foi escrito por um ou por outro jornalista acerca dos
acontecimentos dos últimos dias envolvendo o julgamento do STJD.
Alguns mediram suas palavras e comentários, tentando compreender e
serem compreendidos dentro um turbilhão de informações e
desinformações. Assoberbados por uma possível avalanche de
informações e comentários vindos da TV, rádio, blogs, redes
sociais, alguns jornalistas e comentaristas reproduziram um senso
comum ou simplesmente não mediram palavras ou vírgulas para falar
do caso e dos clubes envolvidos. Alguns diriam que houve uma
irresponsabilidade ou má-fé de um ou outro jornalista, decantando
um rancor recolhido contra os cariocas ou especificamente contra um
time. Outros poderiam dizer que houve pressa em se manifestar em
função de um caso, sem se preocupar com leituras mais apuradas ou
imparciais. Prefiro ver que a culpa foi de uma pressa galopante, que
empurra a todos nós para o minuto anterior, abreviando os espaços
do dia. Somado a isso, culpo a inexorável força do teclado de um
computador que roubou nossa capacidade de escolher algumas palavras,
afastando o poder de rasurar um lápis ou de uma borracha. Nada mais
correto que uma palavra mal escrita possa ser rasurada, apagada ou
substituída por outra menos preconceituosa ou mais explicativa. Com
tantas teclas, percebo que um simples toque no "backspace"
ou "delete" poderia evitar palavras duras ou mal colocadas.
Não
culpo um ou outro jornalista, mas gostaria de levar a reflexão
aqueles que escrevem ou falam e são lidos ou ouvidos por centenas,
milhares ou milhões nos mais variados veículos de informação. Que
suas palavras não escondam um rancor, medo ou tentativa de criar uma
animosidade que impeça a proximidade inocente de dois desconhecidos
que torcem por times diferentes, sem que se crie uma nuvem de
animosidade entre as partes. Que se use a mais simples vírgula ou
ponto de exclamação para suscitar a reflexão de todas as partes.
Que não se permita a transformação de um simples jogo de bola numa
guerra entre lados que não são opostos. Que se pergunte se é
necessária ou verdadeira nossa palavra. Que não se crie clima de
animosidade que impeça o mais simples menino de usar a camisa de seu
time do coração. Que não percamos a crítica sobre nossas próprias
palavras ou gestos.
E
que no final, eu possa somente olhar para o jornal preocupado só com
a data do próximo jogo do meu time do coração, sem querer saber em
qual divisão está, mas somente querendo sintonizar o radinho e
colar o ouvido na caixinha para ouvir a mais esfusiante narração do
momento mais importante de todos: o GOOOOOOLLLLLLLLLL
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